Vegetação descontamina solos poluídos por metais

Enviado em Notícias, Biotecnologia, Pesquisas Científicas de Anderson Porto | 30 de Maio de 2008 @ 10:32

Por Chris Bueno
20/05/2008

Usar a própria natureza para preservar o meio-ambiente. Este é o princípio básico da pesquisa realizada no Instituto de Geociências da USP, que utiliza vegetação nativa para despoluir solos contaminados por metais. Além de ser ecologicamente correta, a pesquisa ainda traz vantagens econômicas e sociais no combate à poluição por mercúrio, chumbo, níquel e outros metais em áreas industriais ou de mineração. O projeto utiliza uma técnica ainda pouco conhecida no Brasil, mas já em prática em países como Estados Unidos e Nova Zelândia.

A técnica utilizada na pesquisa é chamada de fitorremediação. “É um processo de engenharia ecológica que emprega a vegetação na remediação e reabilitação de ambientes contaminados”, explica Fábio Netto Moreno, autor da pesquisa de pós-doutorado. O projeto utiliza dois modos de fitorremediação: a natural e a induzida. Na fitoextração natural, são plantadas no local contaminado espécies chamadas hiperacumuladoras, que possuem capacidade natural de capturar para si os elementos contaminantes. Essa vegetação remove os metais do solo e, com a colheita e o replantio, o solo é gradualmente descontaminado.

Já na fitoextração induzida são utilizadas plantas não-hiperacumuladoras, mas que possuem crescimento rápido e elevada produção de biomassa. Neste caso, são adicionados ao solo substâncias químicas que reagem com os metais presentes no solo, reduzindo sua toxidade e permitindo o desenvolvimento da vegetação no ambiente contaminado. Desta forma, a poluição é controlada, impedindo que desça até os lençóis freáticos ou que seja dispersada pelo vento, por exemplo.

Benefícios econômicos e sociais

A técnica possui forte apelo não apenas ecológico, mas também econômico e, especialmente, social. Além de ser um método com custo significativamente inferior a muitos outros processos convencionais de remediação, a fitorremediação oferece outras vantagens econômicas. Uma delas é a possibilidade de negociação dos créditos de carbono, pois a vegetação formada captura dióxido de carbono do ar e o fixa em sua estrutura. Também é possível reaproveitar, no caso dos metais, o material extraído do solo. Metais de valor, como o níquel, ficam retidos na estrutura da planta, e podem ser recuperados. Após a descontaminação da matéria vegetal, esta ainda pode ser utilizada como biocombustível em caldeiras.

Os benefícios sociais vêm justamente do reaproveitamento dos metais retirados do solo. Moreno explica que nos garimpos brasileiros o solo é contaminado por ouro e mercúrio, e a técnica pode ser aplicada para remover ambos os metais. “Como em muitas das áreas de garimpo existem famílias assentadas sobre rejeitos contaminados, a técnica poderia ser ’ensinada’ para que estas famílias pudessem elas mesmas remediar a área. Se o ouro recuperado da biomassa fosse vendido, então existiria estímulo suficiente para que a técnica fosse adotada em larga escala pela comunidade e cooperativas de garimpeiros. Com isso, fecha-se o triângulo da sustentabilidade com benefícios nas esferas sociais, ambientais e econômicas”, diz.

Isso pode ser comprovado com as experiências realizadas nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. Os dois países adotaram a técnica para remediar solos poluídos com sucesso. Nos Estados Unidos, a fitorremediação já é utilizada comercialmente, movimentando cerca US$ 100 milhões anuais do mercado total de remediação do país. Na Nova Zelândia, onde o pesquisador da USP ajudou a desenvolver uma técnica da fitoextração induzida do ouro, a técnica está em expansão. “Em um projeto piloto, 100 hectares de mostarda foram plantados para recuperar ouro através da acumulação na biomassa aérea”, conta. O ouro retirado do solo, através de tratamento adequado, pode ser reutilizado. “A idéia é recuperar o ouro da biomassa e vendê-lo para abater os custos do processo de remediação”, afirma o pesquisador.

Apesar da comprovada eficiência da técnica, e de possuir condições adequadas para adotá-la, ela ainda não é utilizada no Brasil, e nem há previsão para sua aplicação aqui. “O Brasil possui espécies endêmicas hiperacumuladoras de níquel, cádmio e zinco, que poderiam ser utilizadas na remediação de solos contaminados por estes elementos. Do mesmo modo, também possui condições climáticas e de solo para utilizar plantas como, mostarda, o milho e o girassol na fitoextração induzida. No entanto, ainda não é praticada aqui”, diz Moreno. E justifica: “É preciso que indústrias de porte apostem na fitorremediação e invistam pesadamente em pesquisas nesta área”. E é esta a próxima etapa da pesquisa: buscar recursos financeiros para realização de um experimento de campo com a fitoextração induzida ou natural em escala comercial.

Fonte: [ ComCiência ]

Planta destinada à exportação previne úlceras

Enviado em Notícias, Pesquisas Científicas de Anderson Porto | 30 de Maio de 2008 @ 10:30

Duas espécies de plantas comumente destinadas à exportação são capazes de prevenir a formação de úlceras no trato gastrointestinal, problema que atinge cerca de 10% da população mundial. A pesquisadora Leônia Maria Batista, do Departamento de Fisiologia e Biofísica do Instituto de Biologia da Unicamp, estudou os efeitos da Syngonanthus bisulcatos e Syngonanthus arthrotrichus, duas das espécies popularmente conhecidas como sempre-vivas, em modelos animais que reproduzem as úlceras do homem. “Os experimentos mostraram excelente proteção da mucosa gástrica contra os agentes indutores de úlceras”, revela Batista.

 Crédito: Laboratório de Produtos Naturais da Unicamp - Espécie arthrotrichus, do gênero Syngonanthus que segundo Batista é rico em substâncias com atividade antioxidante
Espécie arthrotrichus, do gênero Syngonanthus que segundo Batista é rico em substâncias com atividade antioxidante
Crédito: Laboratório de Produtos Naturais da Unicamp

A úlcera pode ser causada pelo consumo de álcool e cigarros, pelo uso contínuo de antiinflamató rios, como piroxicem, diclofenaco de sódio ou de potássio, nimesulida, aceciofenaco e ibupofeno, e por alimentação inadequada. O desenvolvimento de úlceras no organismo pode estar associado ainda a um agente infeccioso, como a bactéria Helicobacter pylori, mas o indivíduo também pode ter predisposição genética ao problema.

A pesquisa representa uma estratégia para o isolamento de substâncias ativas que possam gerar medicamentos nacionais eficazes e seguros que atuem na prevenção ao desenvolvimento de úlceras, pois essas espécies são encontradas em território brasileiro. Apesar dessa possibilidade, a pesquisadora ainda não tem previsões sobre o possível desenvolvimento de medicamentos ou estímulos ao uso fitoterápico da planta.

O gênero Syngonanthus pertence à família Eriocaulacea, que compreende as espécies conhecidas como sempre-vivas, que ocorrem em países tropicais. No Brasil, as duas espécies avaliadas no estudo são encontradas na Chapada Diamantina, Bahia, e na Serra do Cipó, em Minas Gerais. Em geral, as sempre-vivas são utilizadas na confecção de arranjos e buquês. Estados Unidos, Japão, Canadá, Espanha e Itália estão entre os países compradores desse tipo de flor. A coleta das plantas para exportação garante o sustento de muitas famílias das regiões onde elas são encontradas, mas também coloca em risco de extinção várias espécies de sempre-vivas.

A pesquisa desenvolvida por Batista, sob orientação da professora Alba Regina Souza Brito, coordenadora do Laboratório de Produtos Naturais, resultou em tese de doutorado, defendida em dezembro, na Unicamp. Os resultados obtidos no estudo serão agora enviados para publicação em revistas internacionais.

Fonte: [ Revista ComCiência ]