A MARAVILHA – Finalmente uma árvore é destaque em Rondonópolis
17/Outubro/2007 | Eleri Hamer
Fiquei surpreso. Embora não tenha votado nela, fiquei agradavelmente surpreso com a eleição do Ipê Amarelo/Praça Brasil como uma das maravilhas da nossa cidade. Até que enfim conseguimos eleger uma árvore como um símbolo de beleza. E o melhor, ela não está decepada nem moldada.
Além da beleza das flores e do verde, para quê serviria uma árvore numa das cidades mais quentes do mundo? Obviamente para fazer sombra e reduzir o calor infernal que emana do sol, do asfalto e do concreto de nossa cidade. Aqui não. Poucas árvores servem para fazer sombra. São usadas podas drásticas para deixa-las domadas, pequenas, ao alcance da mão. Parecem pequenos poodles verdes nas calçadas.
Chega a ser cômico ver os carros e as pessoas se espremendo em cima das calçadas ou embaixo das poucas árvores, a maioria delas depredadas pelos ditos jardineiros. Muitos desses carros são dirigidos pelos próprios vândalos engravatados que determinam o seu corte (não posso chamar isso de poda).
Experimente solicitar para uma criança rondonopolitana que desenhe uma árvore. E olha que estamos num estado que tem Mato no nome e se diz Grosso.
Qual o motivo? Temos o mau hábito de tornar as coisas quadradas, retas. Embora alguns chamem de jardinagem, na verdade depredamos as poucas árvores que temos.
Convenhamos, a nossa cidade mais parece um pequeno deserto. Se olhar-mos do espaço através do google earth, veremos um imenso espaço marrom. Experimente olhar outras cidades como Campo Grande, Dourados, ou até mesmo Cuiabá. Notarás as diferenças.
Isso para não fazermos covardia nas comparações, com Curitiba, Joinville, Porto Alegre e outras que elegeram o verde como seu ambiente preferido e se destacam por isso. Inclusive atraindo investimentos.
E o quadrilátero central? Como se não bastassem as enormes caixas de som nas portas das lojas e o som ambulante espantando os clientes, são pouquíssimas as sombras capazes de abrigar o carro ou mesmo o transeunte. Concordemos que no shopping popular, embora tenhamos que desviar das mercadorias no corredor, tem menos barulho nos enchendo a paciência do que nas lojas do centro.
Qualquer lojista deve saber que o ato de comprar não é apenas uma simples questão de adquirir, é acima de tudo um ato de lazer, de satisfação. Como tornar isso possível? 100% Rondonópolis! vai ter que vir acompanhado de atitudes dos empresários para fazer com que tenha o efeito desejado.
Ouvi depoimentos de que os lojistas não plantam ou não deixam as árvores crescerem nas calçadas para que as fachadas das suas empresas fiquem mais visíveis. A propósito, alguém já deixou de comprar numa loja porque não viu a fachada? Além disso, se tivéssemos mais sombra no centro, os clientes aumentariam ou diminuiriam?
As árvores muito grandes atrapalham os cabos de energia e telefonia. Esse é outro argumento. Mas como pode que só aqui isso é um problema? Somos tão incapazes que não conseguimos aliar progresso com natureza? Outras cidades devem ser mais competentes, pois conseguem fazer isso com facilidade.
Aqui mesmo temos pedaços de ruas em que convivem harmoniosamente árvores enormes, de sombra disputada, com os fios de energia que passam por dentro de suas copadas. Infelizmente são poucas e podem ser contadas nos dedos de uma mão só.
Basta a árvore ser um pouco maior que uma pessoa, e lá está o “jardineiro” com um facão de cortar cana fazendo o desbaste. Em poucos minutos a árvore fica pelada e destruída pela ação sem técnica. E ainda somos capazes de pagar por isso.
Com o fogo é a mesma coisa. Temos uma paixão secreta pelo fogo e o incêndio. Ainda é comum vermos as pessoas depositarem folhas e o lixo seco no primeiro terreno baldio que encontram e tocar fogo, ao invés de fazer um buraco e transformá-lo em adubo orgânico. E não é coisa de bairro pobre não. Nesse quesito, ricos e pobres se equivalem.
Talvez agora com a escolha do ipê amarelo/praça Brasil e o horto florestal como duas das sete maravilhas da cidade, a população, os empresários e os poderes constituídos se conscientizem de que morar numa cidade com mais verde e menos concreto é ótimo e priorizem a arborização e a manutenção do verde em nossa cidade.
Sugiro que as entidades de classe, inclusive a dos engenheiros agrônomos que tanto contribuíram para o desenvolvimento agrícola, agora também se empenhem nesse sentido e desenvolvam ações, entre elas treinamentos, para os ditos jardineiros e inclusive para os funcionários das empresas de energia e telefonia que em alguns casos tem cometido atrocidades nas poucas áreas verdes que temos.
Engenheiros, arquitetos, agrônomos, publicitários, marketeiros, jornalistas, administradores, dentre outros profissionais, precisam conhecer mais de urbanismo. Não basta o poder público se empenhar, todos precisam fazer a sua parte.
Talvez um grande programa envolvendo a comunidade traga benefícios, assumindo o compromisso de que nossa cidade se torne cada dia mais agradável. Que os visitantes não se espantem somente com o calor, a hospitalidade e a pujança. Por uma cidade de casas com menos concreto e ruas com mais árvores.
A população deu o recado. Das sete maravilhas escolhidas, duas são urbanas e verdes.
(*) Eleri Hamer é morador em Rondonópolis - Home-page: www.elerihamer.com.br E-mail: contato@elerihamer.com.br
Fonte: [ A Tribuna - Mato Grosso ]






