Muito mais do que simples arranjos florais
Adriana Ito
Yorokobi no kiwami. A plenitude da felicidade. Foi com essa expressão que a professora Teruko Ogawa definiu seus sentimentos na noite em que celebrou os 40 anos da Associação Cultural Ikebana Ohara-ryu de Londrina (Aciol). “Se eu consegui chegar até aqui, foi graças ao apoio caloroso de todas as pessoas. Sinto uma gratidão muito grande”, afirmou. “Meu desejo é que os conhecimentos do ikebana se propaguem ainda mais”, declarou.
No evento, realizado no último dia 22 na sede da Aliança Cultural Brasil-Japão do Paraná, a professora Reiko Kawamura, vice-presidente da Associação de Ikebana Ohara Ryu dos Estados Unidos, fez uma demonstração montando oito arranjos de estilos e formas bem variadas, culminando com a representação de um biombo em forma de ikebana.
Através das mãos hábeis e explicações pontuais da professora, as mais de 200 pessoas presentes puderam apreciar todo o processo e conhecer as diferentes características que fazem do ikebana uma das artes japonesas mais conhecidas e praticadas pelo mundo.
Forma e harmonia
Quem olha um arranjo de ikebana muitas vezes não é capaz de explicar por que achou bonito, ou o que o diferencia de um arranjo de flores comum. Isso porque tudo é colocado de forma a assemelhar-se com a natureza, respeitando suas características. Assim, uma planta que cresce horizontalmente é colocada dessa forma no arranjo, bem como uma planta essencialmente aquática vai ser montada em ikebanas que valorizam mais a água, como se estivesse em um pequeno lago.
Porém, há alguns detalhes aos quais o leigo pode ficar atento para poder entender melhor toda a sensibilidade que envolve essa arte. Quem explica é Tizuko Yogui, da diretoria da Aciol. Ela começou a fazer aulas de ikebana “por gostar de coisas belas”, mas confessa que não tinha olhos para a natureza. “Hoje eu presto mais atenção na natureza que nos cerca no dia-a-dia, que muitas vezes você olha mas não vê. O ikebana também me ajudou a aprimorar o senso estético”, conta.
Ela ensina que é preciso ver a harmonia entre as flores, entre estas e as folhas, suas cores e formas, e entre todo o arranjo e o vaso. A variedade de plantas que podem ser usadas é imensa e extremamente variada, por isso, a escolha precisa ser muito bem pensada. “Você tem que seguir uma fórmula até aprender e se tornar capaz de seguir sua intuição”, explica Tizuko.
Já a forma é definida dentro dos estilos de cada escola. Há algumas características de ordem prática, porém, que são comuns a todos os ikebanas. É o caso da relação entre o formato do arranjo e o local onde ele vai ficar exposto. “Você não vai fazer um ikebana alto para colocar na mesa de jantar, por exemplo. Nesse caso, é melhor colocar em um aparador”, exemplifica. Da mesma maneira, há ikebanas que são feitos com uma frente determinada, e outros que são circulares, característica que os torna ideais para mesas de centro.
Desenvolvendo a sensibilidade
Foi exatamente em busca de algo diferente para enfeitar um ambiente que Paulo Cesar Bernardi começou a freqüentar as aulas da professora Teruko Ogawa. Na época, ele costumava colocar um arranjo de flores na sorveteria de sua propriedade. “Era sempre rosa ou crisântemo. Quando eu vi que tinha uma escola de ikebana em Londrina, resolvi experimentar, até para variar um pouco”, relata, confessando que, quanto mais foi conhecendo a arte, mais ele foi se apaixonando.
Ele conta que o fato de ser homem e não descendente de japoneses é o que mais chama a atenção das pessoas que conhecem seu trabalho. “Muitos vêem o arranjo na sorveteria e se espantam ao saber que fui eu que fiz. Alguns chegam a perguntar se é artificial”, revela. Paulo lembra que o fundador do ikebana também foi um homem, e foi com o tempo que as mulheres passaram a praticar. “Acredito que o sexo feminino tenha mais sensibilidade, mas isso é uma coisa que também é possível desenvolver ao longo do tempo.”
Fonte: [ Paraná Shimbun ]
Índia incomoda Brasil no mercado do suco de laranja
Sábado, 30 de Setembro de 2006 07:07
[AE/COSTA RICA NEWS – CRN]
A liderança tranqüila do Brasil no mercado mundial de suco de laranja tem uma nova ameaça: a Índia, país que ainda engatinha na produção da bebida. A PepsiCo anunciou esta semana o início do cultivo de 10 mil hectares com 4 milhões de plantas de 32 variedades cítricas para abastecer a unidade da Tropicana naquele país.
“Todo o projeto é irrigado, com alta produtividade, e a produção pode chegar a 12 milhões de caixas de citros e 45 mil toneladas de suco”, afirmou Ademerval Garcia, presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Cítricos (Abecitrus).
O executivo comentou que, ao contrário das edições passadas do World Juice, representantes da Índia já irão participar de painéis como países produtores de suco de laranja na edição deste ano do maior congresso de sucos do mundo, entre 15 e 19 de outubro, em Barcelona (Espanha).
“Normalmente, sempre falam Brasil, Estados Unidos e China, este último mais como produtor para consumo próprio. Mas recebi a nova versão do programa com a inclusão da Índia”, disse Garcia.
De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio, a Índia importou do Brasil 1,2 mil toneladas de suco de laranja na safra 2005/2006, mas, segundo a Abecitrus, um volume maior pode ter entrado naquele país pela Europa, maior importador brasileiro.
“Além da produção local, claro que a Índia vai se tornar um pólo exportador e ainda mais próximo do que nós do mercado consumidor”, alertou o presidente da Abecitrus.
“É bom lembrar, que os projetos de lá vão se tornar produtivos ao mesmo tempo dos novos investimentos feitos aqui nos pomares do Brasil”, concluiu.
Girassol santomense salva doentes de malária
01-10-06
Das entranhas das florestas S. Tomé e Príncipe, um segredo guardado por curandeiros poderá salvar milhares de vidas que no mundo não resistem à malária.
Cientistas portugueses identificaram uma molécula numa planta da flora de S. Tomé e Príncipe com enormes potencialidades no tratamento da malária, e capaz de fazer surgir um medicamento mais eficaz a debelar uma doença que mata milhões de pessoas no mundo.
Conhecida localmente como girassol, dadas as semelhanças com essa vulgar planta, encontrava-se já referenciada, quer em trabalhos científicos, quer na medicina tradicional, noutras partes do globo, essencialmente na América Central, e em países como a Colômbia, Cuba e Guatemala, pelas suas propriedades terapêuticas anti-diabéticas, anti-inflamatórias e anti-diarrêuticas.
“Foi a primeira recolha etno-farmacológica a nível mundial como anti-malárico”, referiu a investigadora Maria do Céu Madureira, que em finais do corrente ano apresentará uma tese de doutoramento na Universidade de Coimbra com os resultados das suas pesquisas
No entanto, em S. Tomé e Príncipe o girassol, ou, na designação científica, Thitonia diversifolia, já era utilizada por dois ou três entre a meia centenas de terapeutas tradicionais cujo trabalho foi estudado ao longo de mais de uma década por um grupo de cientistas portugueses ligados a instituições de Lisboa e Coimbra.
O interesse pelo estudo da flora de S. Tomé e Príncipe, por parte de Maria do Céu Madureira, docente no polo da Caparica do Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz, surgiu por volta do ano de 1992, após assistir a uma comunicação de um farmacêutico santomense num congresso em Lisboa.
Depois de uma pesquisa bibliográfica sobre plantas medicinais santomenses com a sua colega Ana Paula Martins, que revelou um enorme vazio de estudos, e a grande receptividade demonstrada pelo Ministério da Saúde do país durante um contacto de férias, fizeram com que a sua curiosidade evoluísse para um projecto, que obteve o apoio por parte da Fundação para a Ciência e Tecnologia de Portugal, e a orientação científica da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra.
A escolha de S. Tomé e Príncipe, segundo contou Maria do Céu Madureira, teve também a ver com o facto de ser um país em paz, o que não colocava obstáculos às indispensáveis visitas de campo, e o uso da língua portuguesa acabava por facilitar a comunicação.
350 espécies medicinais identificadas
Numa fase inicial o projecto incidiu na recolha de todas as plantas que eram usadas nos medicamentos ministrados pelos terapeutas tradicionais santomenses, o que permitiu identificar 350 espécies medicinais, quase metade das cerca de 800 inventariadas no país.
“Cada uma dessas 350 espécies utilizadas no receituário tradicional são um potencial fármaco”, realçou a investigadora, salientando que muitas outras plantas haverá com potencial, embora ainda não se encontrem inventariadas.
Foi um trabalho moroso e de paciência na inventariação das espécies, e de construção de relações de afecto e confiança com a meia centena de curandeiros, ou terapeutas tradicionais, que assim foram desvendando os segredos do ofício.
“São segredos transmitidos de geração em geração e que só passam quando começam a confiar verdadeiramente nas pessoas, quando sentem que respeitam a sabedoria deles, e que não vão à sua procura tipo ave de rapina para nunca mais aparecerem”, observou.
Os trabalhos de identificação das plantas contaram ainda com o apoio no terreno do docente Jorge Paiva, ligado ao Instituto Botânico da Universidade de Coimbra. Depois de identificadas começavam a ser estudadas à luz de uma eventual informação científica que existisse sobre a sua composição química ou em termos farmacológicos, estabelecendo-se ainda a “ponte entre isso e o conhecimento tradicional”.
A partir daí a investigação segmentou-se em dois projectos. Ana Paula Martins ocupou-se com um pouco mais de duas dezenas de plantas aromáticas para avaliar as sua actividade anti-fúngica. Maria do Céu Madureira dedicou-se ao estudo de perto de seis dezenas de espécies medicinais não aromáticas com actividade anti-bacteriana e anti-fúngica e comprovou em ensaios laboratoriais que “76 por cento dessas plantas eram eficazes naquilo que os terapeutas tradicionais afirmavam”.
Estudo dos antimaláricos como agradecimento ao país
“Depois de estarmos tantos anos nas ilhas começamos a ver que tínhamos de dar um contributo com alguma coisa importante para S. Tomé e Príncipe”. Surgiu então o projecto de investigação em torno de anti-maláricos, que pudesse ajudar a travar uma doença que é das mais importantes causas de morte no país e em muitos territórios do globo.
Desenvolvido ao longo de quatro anos, mediante um financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia de Portugal, um novo projecto inicia-se com o estudo de 13 espécies medicinais com possível actividade anti-malárica, algumas usadas para tratar a doença e outras utilizadas em usos similares pelos terapeutas tradicionais.
Na totalidade dessas espécies os resultados foram positivos, pois todas elas tinham actividade sobre o parasita que desenvolve a doença, realçando, mais uma vez, a grande importância dos estudos etno-farmacológicos, ao permitirem direccionar a investigação a partir das indicações dos curandeiros, referiu Lígia Salgueiro, docente da Faculdade de Farmácia de Coimbra e orientadora da tese de doutoramento de Maria do Céu Madureira.
A evolução do estudo, com ensaios fito-químicos, farmacológicos e de actividade anti-malárica e biológica em células e com ratinhos, levou à selecção de quatro plantas, e depois duas, acabando por se revelar a Thitonia diversifolia a mais promissora, com a vantagem acrescida de os níveis de toxicidade serem praticamente inócuos.
A Coimbra juntam-se universidades de Lisboa, França e Bélgica
Os estudos necessários levaram ao envolvimento de outros investigadores, da Universidade Nova de Lisboa, do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, da Universidade de Liège (Bélgica) e da Universidade de Marselha (França).
A molécula activa foi identificada, mas como não é apenas aquele componente químico isolado da Thitonia diversifolia utilizado nos chás preparados pelos terapeutas tradicionais no combate à malária, outras possibilidades se mantêm em aberto ao desenvolvimento de um fármaco.
“Independentemente de aquilo que já temos ser muito bom, poderá melhorar-se ainda mais a actividade” da molécula, conjugada com outros compostos químicos activos da mesma planta, quer para concepção de um fármaco, quer para uma proposta de extracto padronizado a utilizar pela medicina tradicional, sublinhou a investigadora.
Nesse sentido já foram estabelecidos contactos preliminares para o envolvimento de um grupo de investigação da Faculdade de Farmácia de Lisboa que trabalha com anti-maláricos naturais.
A partir daí será necessária uma parceria com a indústria farmacêutica para o desenvolvimento de um medicamento, que mais rapidamente poderá ser utilizado em pacientes, beneficiando de um processo agilizado, em virtude de se tratar de uma molécula natural, há centenas de anos em contacto com o organismo humano, com observações clínicas válidas e validadas, tal como prevê a própria legislação comunitária.
Para a salvaguarda da sabedoria dos terapeutas tradicionais santomenses, além do que ficará registado na tese de doutoramento, está a ser preparada a publicação de um livro com o envolvimento da Fundação Calouste Gulbenkian, com o receituário tradicional santomense e o resultado da pesquisa bibliográfica, com o conhecimento científico que a nível mundial existe sobre essas plantas.
Cada uma das 350 espécies utilizadas na medicina tradicional de S. Tomé e Príncipe terá uma ficha individualizada, com a indicação do nome vernáculo e científico, os métodos de preparação e de administração, com as quantidades indicadas, os fins terapêuticos e a sua toxicidade, se é ou não aconselhada para grávidas e crianças.
É um saber científico e empírico secular que fica compilado, evitando-se que a sabedoria popular corra o risco de se perder, porque os curandeiros são idosos e não têm aprendizes e o continente africano tende a ocidentalizar-se e a desvalorizar esse conhecimento, concluiu Maria do Céu Madureira.
Francisco Fontes
Girassol, paludismo
A Tithonia diversifolia, ou girassol, tal como é conhecida em S. Tomé e Príncipe, confirmou em ensaios laboratoriais a actividade farmocológica indicada pelos terapeutas tradicionais, que normalmente dela fazem uma beberagem a partir da cozedura de extractos de caules, flores e folhas secas para tratar a malária.
Segundo os investigadores, esses extractos da planta revelaram uma actividade antiplasmódica, quer na fase eritrocitária do Plasmodium falciparum, resistente à cloroquina, quer na fase hepática do desenvolvimento do parasita. A sua eficácia, nesta última fase, “sugere que estas plantas possam ser usadas como profilácticos, na prevenção da doença”.
“O desenvolvimento de produtos fitofarmacêuticos com estas características pode ser de grande relevância para a protecção de grupos de risco (crianças, grávidas, idosos), especialmente em áreas com tão elevados níveis de resistência” do Plasmodium falciparum à cloroquina e à maioria dos fármacos actualmente disponíveis, como é o caso de S. Tomé e Príncipe, afirmam.
Contudo, a planta não só revelou laboratorialmente propriedades terapêuticas para o combate à malária, como também em situações clínicas que evoluem para certos tumores, como o carcinoma da estômago, mama e algumas leucemias. Esta planta medicinal possui ainda uma comprovada actividade anti-diabética, designadamente para tratamento de diabetes tipo 2. Os mesmos extractos da planta revelaram actividade contra o HIV-1.
A Tithonia diversifoli, uma planta nativa da América Central e do México é utilizada também noutras regiões do mundo com fins terapêuticos. Em Cuba tratam-se contusões, a partir de folhas maceradas com álcool, como substituto de Arnica. Na Colômbia usa-se uma decocção das folhas para tratar espasmos e problemas hepáticos. Na Venezuela tem uso veterinário em coelhos, como anti-abortiva, e para melhoria da lactação pós-parto. Os chineses empregam-na no tratamento de diabetes, e no Congo as folhas são utilizadas como anti-diarreico. Na América Central os extractos das folhas são usados externamente para o tratamento de hematomas e ferimentos.
Perante esta multiplicidade de aplicações, e os resultados promissores já evidenciados, a Tithonia diversifolia é - para os cientistas - uma planta a continuar a estudar no futuro.
FF
Fonte: [ A Semana Online ]






