Cientista alerta que risco de praga persiste para a lavoura cacaueira
São Paulo (Agência Estado) - Uma nova análise genética da praga da vassoura-de-bruxa mostra que a epidemia que devastou as plantações de cacau do sul da Bahia na década de 90 foi causada por apenas duas variedades do fungo Crinipellis perniciosa, enquanto na Amazônia, onde o fungo é endêmico, há possivelmente milhões de variedades selvagens. Os resultados alertam para o risco de novas epidemias, pois as plantas usadas na lavoura podem não ser resistentes a outras variáveis da praga. Além disso, sugerem fortemente que a denúncia relatada na última edição da revista ‘Veja’ é insustentável do ponto de vista científico.
Segundo a reportagem, a vassoura-de-bruxa teria sido introduzida na Bahia por militantes de esquerda, que trouxeram ramos infectados de Rondônia para sabotar a supremacia econômica e política dos barões do cacau baianos. Quem relata a história é um dos executores da trama: Luiz Henrique Franco Timoteo. Segundo uma auto-denúncia registrada por ele em setembro de 2005, as amostras do fungo foram coletadas em pelo menos quatro cidades rondonenses - Ouro Preto do Oeste, Jaru, Cacoal e Ariquemes - e os ramos infectados, amarrados como bombas biológicas em árvores de várias fazendas do sul da Bahia, ao longo da BR-101, entre 1987 e 1991. ‘Não tenho dúvidas de que a introdução foi criminosa, mas essa história, da maneira que foi contada, é altamente improvável’, disse o pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Projeto Genoma da Vassoura-de-Bruxa, Gonçalo Pereira. Sua contestação baseia-se nos resultados de um estudo genético concluído no ano passado e que, coincidentemente, foi aceito este mês para publicação na revista científica especializada ‘Mycological Research’.
Os pesquisadores compararam geneticamente amostras do fungo de várias localidades do Brasil e do Equador. Os dados mostraram que a variabilidade do Crinipellis perniciosa na região amazônica é enorme, apesar de haver apenas duas variedades do fungo no sul da Bahia. Segundo os cientistas, a epidemia baiana cresceu a partir de dois únicos focos de infecção, nos municípios de Uruçuca e Camacã, em 1989. ‘Se o que ele (Timoteo) conta é verdade, deveria haver vários focos e vários tipos diferentes de fungo’, afirma Pereira, que coordenou o estudo. ‘A chance de ele ter pego fungos de várias localidades, em diferentes anos, e apenas dois terem se desenvolvido é praticamente nula.’
Por coincidência, o estudo incluiu amostras de vassoura-de-bruxa de três cidades de Rondônia, duas das quais citadas por Timoteo: Ouro Preto do Oeste, Ariquemes e Ji-Paraná. ‘Pegamos apenas um isolado de cada região e os três já são muito diferentes entre si. Assim sendo, a chance do sabotador ter conseguido apenas dois isolados, tendo feito uma coleta aleatória em diferentes propriedades dessas regiões, é próxima de zero’, explica Pereira.
Fonte: [ O Liberal ]






